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Ex-aluno do Conservatório de Tatuí é aprovado e vai estudar na França

Pablo Ribeiro conquistou uma das cinco vagas para um curso de especialização com o renomado saxofonista Jean-Denis Michat

Recém-formado no curso de Saxofone Clássico do Conservatório de Tatuí – instituição do Governo do Estado de São Paulo e Secretaria da Cultura do Estado –, o músico Pablo Hugo Ribeiro de Lima conquistou uma vaga no curso de especialização do Conservatoire à Rayonnement Regional de Lyon, na França, sob a orientação do renomado saxofonista Jean-Denis Michat. Vivendo na Europa há cerca de três meses, Pablo visitou Tatuí recentemente e contou um pouco da sua trajetória desde a infância, no Ceará, até a realização do que ele define como um “grande sonho”.

Confira:

Conservatório de Tatuí – O que motivou você a escolher este curso na França?

Pablo Ribeiro – Desde que comecei a estudar saxofone, já pensava sobre o que eu faria quando terminasse o curso. Descobri que a França era um dos lugares mais propícios para fazer uma especialização e, pesquisando gravações, descobri Jean-Denis Michat e me tornei um grande fã dele. Então, defini este projeto de estudar na França com ele. Durante dois anos, aprendi o idioma e guardei dinheiro para a viagem. Assim que me formei no Conservatório de Tatuí, no meio deste ano, fui fazer o concurso.

CT – E como foi a seleção?

Pablo Ribeiro – Chegando lá, me deparei com 12 candidatos para cinco vagas. Destes, dez eram estrangeiros, praticamente todos na mesma situação que eu. A prova teve um nível altíssimo, competi com europeus e asiáticos. É assustador, mesmo tendo um nível de excelência aqui no Conservatório, você se depara com um nível escolar que não é a nossa realidade. Demorou uma semana e recebi a notícia de que fiquei em quinto lugar. Pareceu uma eternidade!

CT – Quando foi fazer o concurso você já estava preparado para ficar na Europa?

Pablo Ribeiro – Fui preparado para ficar pelo menos uns meses, mas fui com visto de turista e precisava ter visto de estudante. Pelas normas, brasileiros têm direito de permanecer na França por três meses até regularizar a situação. Então, cumpri os primeiros meses e agora voltei para o Brasil para resolver tudo.

CT – E como você avalia o curso nestes primeiros meses?

Pablo Ribeiro – É um curso de especialização em saxofone clássico e com um professor especializado em obras de alto nível do repertório do instrumento.  Tenho aulas três dias por semana, das 8h00 às 18h00 e o nível de exigência é o máximo. Ele (Jean-Denis) fala que somos como esportistas e temos um cronograma de estudo de seis a oito horas por dia. As aulas são em grupo e o professor fala que, se conseguimos tocar para a plateia mais exigente que são os outros alunos e pianistas correpetidores, podemos tocar para qualquer outra pessoa.

CT – Qual a duração do curso?

Pablo Ribeiro – Jean-Denis fala que o aluno tem que ficar no mínimo um ano para aprender o básico; dois a três anos para um conhecimento intermediário; ou quatro, que é o máximo. O “Conservatoire” é vinculado à universidade, então, quem conclui o curso sai com a graduação, o DEM – “Diplôme d’études musicales”. Quero fazer os quatro anos porque sempre busquei estudar com este professor.  Na verdade, o curso superou minhas expectativas. Eu já era fissurado no trabalho dele e, quando cheguei lá, superou tanto no lado intelectual e artístico quanto no pessoal. Ele é uma pessoa realmente 100% para dar aquele empurrão para a gente chegar onde quer.

CT – E onde você quer chegar, qual é o seu objetivo profissional?

Pablo Ribeiro – Quero ser professor universitário aqui no meu País e passar o que eu estou aprendendo, todas as minhas experiências. Quero, um dia, poder repassar minha experiência para outras pessoas e, assim, construir uma sociedade melhor.

CT – O que despertou seu interesse pelo instrumento?

Pablo Ribeiro – Eu sou do interior do Ceará, de uma cidade chamada Paraipaba. Tudo começou com a minha irmã. Ela tocava na banda do meu município e tocava o saxofone em casa. Para falar a verdade, eu nem gostava de ouvir. Um dia, ela insistiu para eu ir ao ensaio da banda com ela. Perguntei se tinha bateria e fui ver. Chegando lá, vi o clarinete e fiquei encantado. Falei para o maestro que era o que eu queria tocar e apontei, porque nem sabia o nome.  Mas aí ele disse que eu tinha cara de saxofonista, deu um sax na minha mão, ensinou algumas posições e, de primeira, consegui tocar a escala de dó maior. Então ele disse “Esse é o seu instrumento”. Fiquei meio “assim” porque nem gostava, mas fui uma semana e peguei gosto. Virou paixão.

CT – Você fez parte da banda com a sua irmã?

Pablo Ribeiro – Durante dois anos. Toquei nesse grupo, a Banda Municipal de Paraipaba, com o maestro Madiel Francisco dos Santos. Até que eu pensei “Tenho que sair daqui e buscar algo a mais para minha carreira”. Na época, havia uma banda na capital, Fortaleza, a Banda Juvenil Dona Luíza Távora, que era uma banda de jazz muito conhecida, com mais de 45 anos, mantida por uma escola, o Centro Educacional da Juventude Padre João Piamarta. Fui para lá. Eles têm um trabalho incrível, tocaram em vários países, inclusive para o Papa.

CT – Havia algum concurso para entrar?

Pablo Ribeiro – Não. Era mais um convite. O maestro Francisco da minha banda me indicou e o maestro de lá me chamou para uma avaliação. Toquei um pouquinho e, no mesmo dia, já fui ensaiar. Passei mais dois anos lá. Foi onde eu desenvolvi outro estilo – o jazz. Mas eu tocava por hobby, porque o que eu amava mesmo era a música clássica e eu tinha certeza de que deveria haver cursos de música clássica e comecei a pesquisar. Descobri grandes saxofonistas na França, inclusive Jean-Denis, e era o que eu procurava.

CT – O que trouxe você para São Paulo, para o Conservatório de Tatuí?

Pablo Ribeiro – Na época, dois professores do Conservatório de Tatuí foram para Fortaleza fazer um trabalho solo com a banda, os professores Marcelo Bambam (trombone) e Joaquim Antonio das Dores (trompa). Vimos os dois tocar e foi incrível. Eles viram que tinha muita gente talentosa lá e falaram do Conservatório de Tatuí, da estrutura, de como eram os cursos, que era tudo gratuito e da oportunidade de desenvolver o trabalho. Fiquei com isso na cabeça. Na época, eu tinha feito vestibular e passado no curso de Música de três universidades federais.  Um mês depois, abriu o processo seletivo no Conservatório de Tatuí. Falei para minha mãe que eu viria para São Paulo. Desisti das universidades e vim para Tatuí sem saber se ia passar ou não. Fui aprovado, graças a Deus e ingressei no curso de Saxofone com o professor Giancarlo Medeiros. Estudei dois anos com ele, depois mais dois anos e meio com o professor Rafael Migliani.

CT – Como foi trocar o jazz pelo clássico?

Pablo Ribeiro – Era exatamente o que eu queria. Aqui tive toda estrutura para ir além do que eu pensava. Foi mais do que eu esperava porque colocou outra sementinha na minha cabeça. Descobrir que na França o sax clássico era bem famoso, fiquei com isso na cabeça e o curso aqui me preparou para isso. Os professores sabiam do meu sonho, então, foi uma preparação mesmo. Os professores apoiaram meu sonho. Aliás, preciso ressaltar que este é um aspecto muito legal do Conservatório de Tatuí. Os professores abraçam também o sonho do aluno. Prova disso é a quantidade de alunos que têm êxito na carreira.

CT – Qual a sua expectativa daqui para a frente?

Pablo Ribeiro – Minha expectativa é estudar esses quatro anos com Jean-Denis, aproveitar, tirar o máximo dele, porque foi o que eu sempre quis, aprender o estilo e a maneira dele tocar. Depois, pretendo voltar ao Brasil para fazer graduação, mestrado e doutorado para seguir minha carreira pedagógica, se Deus quiser em uma universidade.

CT – Que mensagem você pode deixar para outros alunos?

Pablo Ribeiro – Quando cheguei aqui, o Conservatório de Tatuí foi incisivo na minha vida. Três professores: Giancarlo Medeiros, Rafael Migliani e Marcos Pedroso, essas pessoas viveram um pouco da minha história e me ajudaram a construir o caminho para realizar meu sonho. Foi essa estrutura, uma das melhores da América Latina, que me ofereceu a experiência necessária para estar onde estou. Então, sou muito grato ao Conserva tório de Tatuí e a todos que o fazem existir.

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