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ENTREVISTA – Semana da Mulher – Renata Perón

Publicado em 3 de março de 2018

ENTREVISTAS

Renata Perón

“Um dia eu gostaria de comemorar o Dia Internacional da Mulher ao lado de outras mulheres. Hoje, não sinto que posso fazer isso”

Renata é recepcionista na SP Escola de Teatro e também é presidente da ONG CAIS - Centro de Apoio de Travestis e Trans

Quando Simone de Beauvoir disse que a mulher não nasce mulher, mas torna-se, ela
se referia ao fato do papel da mulher na sociedade. A mulher não tem um destino
biológico, mas um papel social que durante anos esteve ligado à maternidade, à
procriação, a servir ao homem. Ela e outras mulheres que vieram antes e depois dela
romperam as barreiras para garantir que hoje seja possível, mesmo com todas as
mudanças ainda necessárias, que a mulher seja quem ela quiser ser e tenha o papel
na sociedade que desejar. Mas, quando falamos sobre a mulher transexual, aquela que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo biológico, ela pode comemorar a data tão significativa para a luta por direitos das mulheres?

“Nós vivemos em uma sociedade que nos julga e critica por identidade de gênero e
não por profissionalismo”, diz Renata de Moraes Pessoa, 41 anos, conhecida
internacionalmente como Renata Perón.

Ela é atriz, cantora, animadora, assistente social por formação, e hoje trabalha como recepcionista na SP Escola de Teatro, instituição da Secretaria da Cultura do Estado, graças a uma política de acessibilidade.

“Esse projeto é mega importante porque a pessoa travesti ou trans tem que ter a
dignidade de correr atrás dos seus sonhos, mas a sociedade apenas aceita que ela
sirva de reduto sexual para homens durante a madrugada, de dia não querem que a
gente apareça”.

Renata também é presidente de uma ONG, a CAIS – Centro de Apoio de Travestis e
Trans – e tem uma história de militância pelos direitos da população T, sobretudo na
área de empregabilidade.

Sobre o Dia Internacional da Mulher, ela lamenta o fato de que ainda muitas mulheres
não enxerguem as mulheres trans como mulheres e, portanto, não consegue ainda
celebrar a data. “Em um evento, ouvi de uma pessoa que ela não me via como mulher e que, portanto, não tinha que me respeitar como tal. Isso não mexeu comigo
psicologicamente, porque eu sei quem eu sou. Eu tenho anos de experiência. Mas e se
fosse uma menina trans? Ela iria destruir aquela menina na frente de 150 pessoas! Na
ocasião eu tive muito jogo de cintura e respondi que sentia muita pena da ignorância
dela. Mulher não é só aquela que nasce com o órgão sexual feminino, esse conceito já
caiu por terra faz tempo”.

Ela deseja que o Dia seja também um dia de reflexão para que mulheres cisgênero
reflitam e vejam a mulher trans como mulher. “Eu não me sinto representada e aceita.
Quem sabe um dia eu possa dizer o que você gostaria de ouvir: que o dia é importante
para visibilizar as diferenças. Mas eu ainda não posso dizer isso”.

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