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“Capão Palace”: teatro na Fábrica de Cultura Capão Redondo!

Publicado em 8 de novembro de 2017

Peça teatral discute especulação imobiliária no Capão Redondo.

“Capão Palace” – Foto: Cris Glass

As Fábricas de Cultura começaram a apresentar a edição 2017 do Projeto Espetáculo, quando peças teatrais desenvolvidas pelos alunos ao longo do ano são mostradas ao público. Com dez unidades implantadas em bairros da cidade de São Paulo onde jovens e crianças vivem em situações de alta vulnerabilidade, as Fábricas são um programa da Secretaria da Cultura do Estado que oferecem cursos voltados para diversas linguagens artísticas, além de buscar a convivência com as comunidades do entorno desses equipamentos.

O projeto Espetáculo é realizado nas dez unidades, cada uma com uma peça diferente. As Fábricas das zonas norte e sul mostram seus resultados finais entre os dias 08 e 26 de novembro nos bairros da Brasilândia, Capão Redondo, Jaçanã, Jardim São Luís e Vila Nova Cachoeirinha. O portal da Secretaria acompanhou um dos ensaios gerais do trabalho desenvolvido no bairro do Capão Redondo, com a peça “Capão Palace”.

Segundo a supervisora pedagógica da unidade do Capão Redondo, Izabela Machado, a peça reúne 30 participantes, de idades variadas, de 12 a 21 anos, e o trabalho teve início em fevereiro. O texto, conduzido pelo dramaturgo Alessandro Toller, trata da especulação imobiliária no bairro, mas outros temas estão presentes, como a religiosidade, a intolerância e o respeito às diferenças. “Inicialmente, discutimos uma proposta de dramaturgia. Na sequência, os alunos foram descobrindo o tema e desenvolvendo a cena”, conta. “Embora as Fábricas de Cultura sejam espaços de formação, tudo foi encarado como um processo profissional”, afirma o diretor da peça, Ícaro Rodrigues.

Veja a seguir entrevistas com Ícaro Rodrigues e Alessandro Toller, além de um trecho da peça “Capão Palace”.

Da esquerda para a direita: Ícaro Rodrigues (diretor) e Alessandro Toller (coordenador de dramaturgia) – Foto: Joca Duarte

ÍCARO RODRIGUES – Diretor da peça “Capão Palace”

Como foi o ritmo de ensaios? Quantos dias por semana e quantas horas em cada dia?

Nos encontramos três vezes por semana (às terças, quintas e sábados), desde fevereiro, quando iniciamos o processo. Num primeiro momento, nos dedicamos a criar um ambiente coletivo de trabalho, desenvolvendo o respeito à sala de ensaio e entre os envolvidos. Para isso, trabalhamos com jogos teatrais que trazem elementos básicos de jogo cênico, como: qualidade de atenção, disponibilidade corporal, foco, construção coletiva, presença cênica e qualidade de escuta. No decorrer do processo, discutimos os temas em sala de trabalho, lemos textos para nos dar algum suporte teórico para a discussão, realizamos improvisações e criamos cenas em grupos, para apresentar matéria cênica para a dramaturgia. Após receber a primeira versão do texto propriamente dito, fizemos novas leituras e discussões e partimos para a montagem das cenas, atual fase do processo.

Qual o diferencial de trabalhar com jovens que, possivelmente, não tinham conhecimento prévio das artes cênicas?

Alguns aprendizes já vêm de experiências em outras edições do Projeto Espetáculo, porém, não creio que isso faça tanta diferença no processo de criação. Todo ano buscamos bases comuns de trabalho, no que diz respeito a tema e linguagem. O ator Rubens Correia, uma das referências que lemos, dizia que “cada ser humano traz consigo um material fantástico, único e inimitável”, acredito que a principal matéria de trabalho são as vivências e visões de mundo de todos envolvidos na criação, claro que aliado ao contato com novas referências.

Assistir a espetáculos de teatro e ler textos de Stanislávski, Brecht e Georg Büchner, por exemplo, foram fundamentais para termos este campo comum de discussão.

A peça “Capão Palace” é itinerante, percorre alguns locais da Fábrica de Cultura do Capão Redondo (portaria, saguão) e alguns andares, com os atores e público subindo de elevador ou pelas escadas para acompanhar as cenas. Houve um motivo especial para essa escolha da direção? A dramaturgia indicava essa movimentação?

Essa possibilidade surgiu a partir do processo de criação de cenas. Algumas cenas propostas pelos aprendizes aconteciam em espaços externos à sala de ensaio, no corredor do prédio. Como também venho de experiências no campo da intervenção urbana e do site specific, junto à Companhia São Jorge e ao Teatro da Vertigem, onde trabalhei como ator, propus ao coletivo que explorássemos a verticalidade do prédio da Fábrica de Cultura, daí surgiu a ideia de um edifício ficcional.

Qual função da música na primeira parte da peça?

A música do início cumpre a função de recepcionar o público, fazendo uma menção ao mundo da publicidade, onde pessoas brancas sorriem e são felizes. Essa música vem na chave da ironia, linguagem recorrente no espetáculo.

Os alunos trouxeram elementos do seu dia a dia para a composição de seus personagens? Poderia exemplificar algum?

No espetáculo temos dois grupos de personagens, um grupo ligado ao Capão Palace e outro que representa os moradores do Capão Redondo, descontentes com a construção do edifício. No caso do primeiro grupo, a construção das personagens vai num caminho contrário às vivências dos aprendizes, mas muitos identificam discursos de amigos e familiares no mundo do trabalho, como na cena dos vigias que se dizem felizes nos seus dois metros quadrados de recepção e com uma folga a cada três semanas. Já no segundo grupo,  há mais espaço para pontos de vistas mais próximos aos de alguns aprendizes, já que muitos são jovens que questionam a sociedade atual e suas estruturas de poder.

Ensaio geral da peça “Capão Palace” – Foto: Joca Duarte

ALESSANDRO TOLLER – Coordenador de dramaturgia da peça “Capão Palace”

Como foi o processo de escrita? Quantos dias por semana e quantas horas em cada dia?

O processo de escrita encampa o pensamento e prática do Projeto Espetáculo das duas Fábricas da Zona Sul e as três da Zona Norte: criação colaborativa, desenvolvimento da dramaturgia a partir dos encontros da sala de ensaio. Este ano, devido à restrição orçamentária, tive que me dividir entre o processo no Capão Redondo e no Jardim São Luís. Presencialmente, uma vez por semana em cada Fábrica – além dos encontros regulares às segundas-feiras com todas as equipes e orientadores Eliana Monteiro e Ivan Delmanto. Adicionando a isso as horas fora dos encontros de pesquisa e escrita todas as semanas.

A dramaturgia de Capão Palace foi feita em processo colaborativo? Todos os 30 alunos do elenco participaram da dramaturgia?

Sim, colaborativo. Todos os aprendizes participam a partir do momento que se cria a pareceria em dramaturgia com eles, elenco. Desde o início eles sabem que esse é o intuito. Logo, o que eles preparam como cena, o que dizem em cena, o que se discute em sala de ensaio, é material para criação da dramaturgia. Todo material escrito por eles é lido e dimensionado na hora da elaboração do texto da peça.

Como foi o processo? Os alunos trouxeram temas para serem desenvolvidos? Escreviam textos e você deu a forma final? Eles leram ou discutiram textos de outros autores, pesquisaram sobre os temas?

Pela minha experiência de atuação em três Fábricas (Capão, São Luís e Jaçanã), cada processo tem suas particularidades em relação ao grupo de aprendizes. No caso do Capão, os aprendizes propuseram cenas, ações cênicas. E delas, a dramaturgia junto à direção extraiu temas e conteúdos que foram reelaborados na hora da escrita. Bom destacar um texto que foi fundamental para o processo, tanto em relação ao projeto de dramaturgia quanto à discussão com aprendizes (incluindo o assunto e a forma narrativa): “Woyzeck”, do Büchner. Todos lemos, discutimos e identificamos semelhanças com a dramaturgia do Capão Palace.

O texto tem elementos absurdos (como os dois porteiros que brigam na entrada do prédio) e isso leva para um humor meio nonsense. Esse foi o objetivo? O humor auxilia na discussão de temas sérios, como intolerância e identidade?

Sim, a partir do momento que identificamos a “ação narrativa” nos corredores do prédio ficcional Capão Palace, onde tudo seria possível, o inusitado ou absurdo podia ser tranquilamente incorporado. E isso surge das cenas improvisadas dos aprendizes, que comportavam possibilidades sem preocupação com realismos, e sim com força expressiva.

O humor auxilia na discussão de temas sérios, sem dúvida. Porém há um equilíbrio ou balanço entre conteúdos/formas mais cômicos e outros mais apreensivos. A proposta do “drama de estações” possibilita essa articulação.

Como os alunos se relacionaram com a escrita dramatúrgica? Houve alguma dificuldade específica? E, se houve, qual a solução encontrada?

O processo de aproximação da dramaturgia com os aprendizes é construído desde o início. Entendemos que o Projeto Espetáculo só faz sentido se os “protagonistas” foram os meninos. Os aprendizes leram o texto e foram identificando os temas discutidos ao longo do ano. Algumas dificuldades se dão em processo natural de adolescentes frente à literatura, mas tem sido gratificante perceber que os entendimentos sobre o que o texto propõe vão se aprofundando no decorrer dos ensaios. Como se quanto mais se avança na construção das cenas, mas presente os sentidos do que o texto propõe ficam. O diretor tem um papel fundamental em estimular as discussões. Sempre abrindo o caminho para que os próprios aprendizes percebam e identifiquem o que vem implícito com o texto.

Ensaio geral da peça “Capão Palace” – Foto: Joca Duarte

TRECHO DA PEÇA “CAPÃO PALACE”

OS FUTUROS PROPRIETÁRIOS DE IMÓVEIS DO EMPREENDIMENTO CAPÃO PALACE ENTRAM NUM RECINTO QUE, ALGUÉM DESAVISADO, PODERIA JURAR SER UM TEMPLO.

MINISTRO(A)-CHEFE DO CONGLOMERADO DESCONHECIDO

Sou o (a) representante “DELE” em Capão Palace! Ele, o Investidor Desconhecido. O Investidor Desconhecido tudo pode, porque Ele, o Investidor Desconhecido, está acima das barreiras de impostos das leis dos homens e das leis do Estado. Ele, o Investidor Desconhecido, tem um plano pra cada um de nós, um plano financeiro para os fiéis compradores e se o plano Dele é fiel aos compradores, vocês podem comprar o plano Dele porque Ele sabe que vocês NÃO são pobres de alma nem de conta bancária… Agiliza, glória!

CORO DE MINISTROS AUXILIARES

Agiliza, glória!

MINISTRO(A)-CHEFE DO CONGLOMERADO DESCONHECIDO

Nenhum de vocês permita que o mal se apodere da dúvida. Porque a dúvida, sabemos que a dúvida, a dúvida prejudica um bom negócio e a dúvida tem muitas moradas… A dúvida se esgueira entre o pensamento de justiça, e que justiça, que justiça a dúvida se apossa? A falsa justiça da TOLERÂNCIA!

UM(A) MINISTRO(A) AUXILIAR

O Desconhecido não quer a diversidade!

OUTRO(A) MINISTRO(A) AUXILIAR

Somos iguais entre iguais!

MINISTRO(A)-CHEFE DO CONGLOMERADO DESCONHECIDO

Ele quer o correto, o correto não admite tantas diferenças, porque as diferenças, sabemos que as diferenças não constroem um solo que pertença a nós, não constroem nosso condomínio, o condomínio de luxo Dele aqui na Terra…


SERVIÇO

Peça Capão Palace | dias 08, 10, 11, 15, 17 e 18/11, às 19h

Local: Rua Bacia de São Francisco, S/N

Sinopse: O edifício da Fábrica de Cultura Capão Redondo ganha dimensão ficcional para abrigar em suas salas, corredores e escadas o Capão Palace, iniciativa imobiliária obscura que pretende vender o bairro e transforma-lo em um enorme condomínio de luxo. Seguranças higienistas, ministros de fé investidores e médicos pouco ortodoxos fazem parte do quadro de funcionários do conglomerado. Enquanto clientes são recebidos para tratar de negócios, Orlante, morador do bairro, rompe o sistema de segurança em busca de Monalisa.

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